Convidado – Gabriel Louback

Este post abre uma série de posts com convidados que farei de agora em diante. Vou tentar, pelo menos uma vez por semana, trazer um texto de amigos que corroborem as coisas que escrevo por aqui.

Pra começar um texto de Gabriel Louback. Irmão pra todas as horas ele se acha jornalista, mas é um contista da vida real, como vocês poderão ler aí em baixo. Maloqueiro, cachaceiro e todas as coisas boas que queremos de um amigo. Romântico incorrigível, aprecia a vida com parcimônia. Pode ser encontrado lá no Crônico.
É recomendado ler escutando High and Dry – Radiohead.*

I bet you think that’s pretty clever, don’t you boy?*

Era 1994. O Brasil seria ou já havia sido campeão do mundo pela 4ª vez. Não lembro se foi antes ou depois de julho. Na verdade, eu achava que tinha acontecido em 93, mas fui pesquisar e o CD ‘Calango’, do Skank, só saiu um ano depois do que imaginei.

Como foi em 1994, eu estava na 4ª série do primário. Sempre foi fácil lembrar os anos de colégio. E o primeiro fora a gente nunca esquece. Na verdade, acho que não foi o primeiro de todos. Talvez tenha sido o primeiro a me deixar engasgado, até com um pouco de raiva.

Como eu disse, Calango tinha sido lançado e o hit parade pertencia ao Skank. Eu sabia o álbum inteiro de cor. Tirando duas músicas mais chatinhas, ouvia todas. Eu só tinha dois discos: Calango e Nevermind. O clássico do Nirvana foi o primeiro que comprei, antes mesmo de possuir um CD player. E lembro que no dia em que fomos comprar o aparelho, para poder ouvir os cinco ‘disquinhos lasers’ que já tínhamos em casa, meu pai comprou o Calango pra mim. Saímos de Guarulhos e fomos até o SP Market, pra lá de Santo Amaro, porque tinha um CD player mais barato. Hoje em dia eu conseguiria convencer meu pai a não ir, simplesmente mostrando que a quantidade de gasolina gasta daria para comprar um aparelho mais caro, em um lugar mais perto, e ainda sair pra jantar no Outback.

OK, volta. A história não é essa. Enfim, eu gostava da Andréa/Andrea/Andreia/Andréia. Não lembro direito. Digamos que seja Andrea, que fica mais fácil de escrever, eu não entro em confusão com a reforma ortográfica e todo mundo sai feliz. Menos o Gabrielzinho, de 1994.

Eu gostava bastante da guria. Ela foi a primeira Winnie Cooper que apareceu na minha vida. Eu era um eterno Kevin Arnold. Jurava que os caras do programa iam fazer pesquisa de campo lá em casa, perguntando pra minha mãe o que rolava na minha vida. Deve ter sido um deleite quando ouviram a história da Andrea.

Estudávamos na mesma classe. Ela não fazia o tipo da ‘massa’. Poucos garotos reparavam nela, o que a tornava mais interessante ainda. Ou reparavam, mas eram tão cagões quanto eu. Como sempre fui muito ruim em xavecar, sempre usei a tática [falha] de virar amigo antes. Só fui me dar conta do quanto isso me atrapalhou anos depois. Como éramos amigos, constantemente ligava para ela, falando de trivialidades. Lição de casa, provas etc. Decidi que estava cansado daquilo. Não dava mais para ficar enrolando, sem ela saber o que eu sentia. Liguei, oi, tudo bem, o que você está fazendo e já emendei: “Olha essa música que ouvi e fiquei pensando em você…”. Entra o Samuel Rosa cantando: “Te ver e não te querer, é improvável é impossível. Te ter e ter que esquecer, é insuportável é dor incríveeel”. Na verdade, foram 20 segundos de introdução, até ele entrar cantando. Tem todo o “Arrarraum iê… uh uh uh. Arrarraum iê. Noaiuntchu cybers”.

Coloquei o CD no meu mini system, aumentei o volume e colei o bocal do telefone nas caixinhas de som. A sorte à época: era um minis system portátil e o telefone era sem fio. Pude ir para o quarto, fechar a porta e pagar esse mico em paz. Eu deixei o Sr. Rosa cantar o refrão [que abre a música], cantar a primeira estrofe inteira [“É como mergulhar num rio e não se molhar”], o refrão de novo, a segunda estrofe inteira [“É como esperar o prato e não salivar”] e o refrão. São dois minutos cravados. E finalizei com aquela técnica de ir abaixando o som aos poucos para parecer que a música acabou. [Nem eu acredito que fiz isso… Minha cara agora, se você pudesse ver, é de desaprovação com “que dó do Gabrielzinho”]. Fade out na música até ficar silêncio.

Gabrielzinho: E então?
Andrea: Er… ah… o que tem de lição de casa pra amanhã?

Juro. Pensando agora, não foi meu primeiro fora. Mas foi a primeira grande decepção. A expectativa de qualquer comentário sobre aquilo e nada. Simplesmente nada. Nem um “Que bosta, Gabriel”. Talvez tivesse sido melhor. Mas não. Ela preferiu falar da lição de casa. Eu não entendia e não a perdoava. Hoje sei que não poderia cobrar qualquer coisa dela. Eu fiz esperando um retorno. Apresentei algo com o fim de ter outro algo em troca. Uma resposta, que fosse.

Aprendi – não sei quando, não sei como – que a gente deve fazer as coisas pelo prazer de fazê-las. Talvez eu esteja errado ou você talvez discorde de mim. Se escrevo para alguém, não é esperando uma resposta. Se eu te visito, não é para ver o quanto você sorriu na hora em que me viu na porta. É simplesmente porque estou com vontade de fazer aquilo. É para satisfazer a minha vontade – o que estou sentindo – qualquer que seja o resultado. O fim está na própria ação, e não no que ela vai causar.

Fiquei traumatizado, mas ‘perdoei’ a Andrea. Tenho a vaga lembrança de ter falado com ela sobre isso. Não sei se foram dias, meses ou anos depois, mas lembro dela me pedir desculpas. De dizer que, no momento, não sabia o que responder. De nunca ter tido oportunidade de sequer pensar que eu [ou alguém] gostasse dela. Não há como culpá-la. E por muitos anos eu me culpei. Mas aprendi também a relevar meus próprios ‘erros’ e a perdoá-los. Entender que eu nem sempre soube das coisas e que nunca vou saber por completo.

[E que não posso tocar “Te Ver” por 2 minutos para uma guria e no final dar um fade out para parecer que a música terminou.]

15 Respostas to “Convidado – Gabriel Louback”

  1. Marina Says:

    O cara é romântico, mas eu sou mais! quase escorreu uma lágrima qdo imaginei uma carinha de decepção de criança… partiu meu coração!
    Concordo com o Gabriel sobre fazer as coisas pelo prazer de fazê-las sem esperar nada em troca e complemento: as pessoas nos decepcionam porque nós deixamos que isso aconteça esperando algo delas.

  2. Beijomeliga Says:

    Quase escorreu uma lágrima quando eu vi que a história se passou no ano em que eu entrei na faculdade. Puta merda, tô velha.

  3. OgrO Says:

    Como assim corroborem o que vc escreve se o cara diz: “fazer pelo prazer de fazer sem esperar nada em troca” e vc diz que o que homem faz “é só pra comer” as menininhas?

    E eu concordo com a afirmação dele em ingenuidade teoria, mas na boa? No mundo real, quem fala “eu te amo” fala para ouvir de volta.

    Ô mãedinámeliga? Cadê a previsão desse comentário? >.<

  4. jolie Says:

    Eu achei tocante seu texto. Mas devo confessar que acho meio difícil [não ímpossível] não esperarmos amor, aprovação, afeto, boa recepção, etc..etc.. das pessoas. Tentamos, temos consciência de que deveríamos nao esperar mas a vida é a vida..sempre há aquele maldito momento de vacilo, de entrega total, faz parte, nos fortalece, nos ensina. Vamos manter nossas boas lembranças…seguiremos amando…e amando de todos os jeitos e maneiras possíveis.
    “Nada há definitivo no mundo, nem o infortúnio nem a prosperidade.” Machado de Assis

    =**

  5. Kelly Says:

    A vida é uma susseção de tentativas. Um dia acontece algum evento significativo q faça nossa alma aprender a não desejar nada em troca e fazer pelo simples prazer de fazer. Um dia aprendemos.. eu acho.

  6. Kelly Says:

    Tá. É suCessão, com C.😛

  7. Shana Says:

    Nooooossa, quase puder ver a cena acontecendo ao vivo… Tb já fiz breguices do tipo, com cantores afins e numa boa… tb serviu de lição… não dá pra repetir, inclusive o lande do fade out…kkk

  8. gabrielouback Says:

    Do que comentaram:

    OgrO – “No mundo real, quem fala “eu te amo” fala para ouvir de volta.” – Pode ser que sim, pode ser que não. O objetivo é com que seja sem interesse. Nem sempre é possível.

    Jolie – “acho meio difícil [não ímpossível] não esperarmos amor, aprovação, afeto, boa recepção, etc..etc.. das pessoas. Tentamos, temos consciência de que deveríamos nao esperar mas a vida é a vida” – é exatamente isso. A questão é que viveremos tentando, nem sempre conseguindo. O que importa é fazer sem esperar em troca. O conceito é esse, não quer dizer que a gente consiga, sempre, praticar.😉

    Kelly – “Um dia aprendemos.. eu acho.” – Também acho. A idéia é essa.

    Resumindo: a idéia é fazer as coisas sem esperar nada em troca. Só que a gente não sabe ser assim. É uma caminhada até que, um dia, quem sabe, aprendamos. Por isso, várias vezes não vamos conseguir, mas é o normal. Tem uma idéia, que gosto muito: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.😉

  9. Pedro Tolentino Says:

    Ótimo texto ! Ótima iniciativa de abrir espaço para convidados e ótima sugestão de música pra se ouvir lendo o texto… ;P

  10. Nane Says:

    Acho que temos uma tendência humana natural de esperar que sejamos compreendidos. A grande tacada é que isso não é uma regra e nessa é que fazemos nossos caminhos…

    Gostei do blog.

    Se puder, dá uma passadinha para conhecer nosso blog, e se gostar, sinta-se a vontade!http://sinceraseapimentadas.blogspot.com/

    Beijinhos

  11. Juliana Says:

    mAS tipo na maioria das vezes nao nos basta apenas corresponder, sempre queremos que sejamos correspondidos a altura. Se voce diz “eu ti amo” pra alguem voce nao espera ouvir qualquer coisa porque alguem dizer “humm que bom” nao vai ti deixar nenhum pouquinho satisfeito. O problema esta na intensidade como demonstramos as coisas, as vezes sentimos algo tao intenso mas nao demonstramos o tempo todo, ai de repente de uma vez voce anuncia pra outra pessoa algo que estava sendo cultivado a tempos, esperando que ela ja estivesse percebido isso e pela mesma razao que a sua nao demonstrava, mas estava esperando o momento que voce o fizesse para que ela tambem pudesse tambem dizer o mesmo =] . Mas nao é assim ne =] e a decepção vem na certa kkkk.
    Mas e dai afinal DECEPÇÃO NAO MATA ENSINA VIVER ne mesmo kkkkk

    bjuuuu blog interessantissimo kkkk
    fica com DEUS

  12. Hildernando Says:

    eu ja senti essa dor… só num coloquei skank! hehehehe

  13. Beta Says:

    acho fofo. não pare de fazer isso, porque quando a pessoa quer ouvir, não existe coisa melhor!! Tá, talvez despense o fade…

  14. Mira Says:

    Hahahaha!!!! Meu ex namorado fazia isso! Era lindo! Brigamos e terminamos! Uma amiga fez isso e quando ouvi a música achei que era ele, quando ouvi a voz dela, coitada, fui tão grossa, insensível!!!!
    É phoda!!!! Foi frustrante pra mim e, com certeza, pra ela!
    SEMPRE ESPERAMOS ALGO EM TROCA DE NOSSOS SENTIMENTOS, SEMPRE ESPERAMOS QUE SEJA COMPATÍVEL COM O QUE A GENTE SENTE.
    Mas não é pq alguém não demonstre, que essa pessoa não goste da gente plenamente e de todo coração!

  15. Mele Says:

    Meu irmão, eu já li vários textos do blog, mas evito comentar.
    só que nesse especificamente eu me estorei de rir pq aconteceu a mesma coisa comigo!
    mas minha ligação foi anonima, o que é mais ridiculo ainda pra mim nesse momento.

    Bem, concordo ctg no “não esperar as coisas de votla e fazer pelo prazer de fazer”.
    mas é dificil, como é…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: